Kitty Kawakubo
© Jonathan Wolpert
Noite

Drag queens e a revolução visual das pistas de dança

Presentes na noite há anos, drag queens são peças importantes das festas de música eletrônica. Conheça aqui algumas figuras da cena de São Paulo
Escrito por Luana Dornelas
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O termo "drag" surgiu no teatro, por volta de 1870, para descrever atores que se vestiam com roupas tipicamente usadas pelo sexo oposto. No Brasil, os precursores da arte drag surgiram nos anos 70 com as transformistas, artistas que usavam maiôs e vestidos em shows de dança. Assim, com seus visuais andróginos e contestadores, elas transformaram sua época, quebrando regras de gênero. Desde então, muita coisa evoluiu.
Ser drag é misturar referências pessoais e artísticas com a essência de sua alma e transformar-se no que quiser. Sempre pensando em novas possibilidades, transmutando-se além dos limites da imaginação. É uma arte que vai muito além do entretenimento. É resistência, coragem e aceitação. É um movimento revolucionário.
Em São Paulo, as drag queens existem há décadas. Desde o início da cena noturna, elas sempre estiveram lá. Depois do sucesso do reality show Ru Paul's Drag Race, a presença de drags na cena cresceu muito, principalmente na cena de música eletrônica underground. Pensando nisso, reunimos aqui alguns da nova geração da cena que você precisa conhecer.
Alma Negrot
Uma ciborgue-voodoo-queen-dominatrix feita manufaturadamente de descartes e ressignificações de materiais e símbolos. É assim que Alma Negrot se define. A drag queer é uma mistura de tudo, mas sem se preocupar em ser alguma coisa.
Em 2014, Alma começou seus estudos com performance, partindo do corpo como suporte da pintura. Na época, trabalhava numa sauna em Porto Alegre onde tinha shows de drags diariamente e a cultura drag ainda não era tão mainstream. "Pra ver um show de Drag, você teria de ir em um inferninho, não em boates de classe média do centro da cidade. A sexualidade assim como a arte LGBTQI+ ainda era bastante condicionada ao ambiente privado como forma de segurança. Foi aí que me interessei pelas possibilidades de performatividades de gênero e com algumas amigas e amigos formamos um coletivo de performance com o intuito de falar sobre a presença dos nossos corpos no âmbito público, com festas de rua", conta a artista.
Quando Alma surgiu, tudo era produzido pela emergência do discurso de corpos presentes ocupando as ruas da cidade com festas e performances ao ar livre. "Não era sobre uma arte profissional ou entretenimento, nunca foi: era sobre viver a nossa verdade do jeito que a vida se apresentava para eles, fazendo com alma", diz. Para dar vida à personagem, vale tudo: papel, sucata, roupa de brechó, tinta guache ou maquiagem. Do improviso e da emergência, a ressignificação.
"O tempo de experimentação dessas poéticas da precariedade me mostrou que gênero já não me interessava e que eu queria ir muito além do ser humano, eu precisava de novos devires. A estereotipação de um feminino mesquinho, branco e delicado que as mulheres até hoje estão tentando se livrar na verdade nunca me interessou. Queria ser mais! Ser planta, entidade, cor, morte, música, paisagem e com a ressignificação dos corpo eu pude ser tudo isso. Não sou ator, detesto teatro. Performance mesmo se tratando de uma ficção, pra mim sempre foi sobre vibrar na minha verdade de forma poética. Enxergar e sentir o mundo de forma sensível pra não morrer com as mentiras da realidade", completa Alma.
Kitty Kawakubo
Kitty Kawakubo teve contato com a cultura drag desde criança: seu tio era drag queen. Aos 16 anos, retomou o contato com o universo drag através de um amigo que era DJ e frequentava algumas festas da cena LGBTQI+. "Quando fiz 19 anos, depois de fazer uma maratona de RuPaul's Drag Race (por indicação da minha mãe) me senti incentivada a querer me montar. Lembro que quando fui contar pros meus amigos ninguém ficou surpreso porque eu já conversava sobre drag 24 horas por dia", conta.
Kitty estudava e trabalhava com moda, mas sentia-se um pouco limitada neste mundo porque as imagens e roupas que criava nunca seriam "adequadas" para um cliente ou pessoa comum. Foi aí que percebeu que ela mesma poderia se transformar naquelas imagens. "No início eu não entendia muito bem o que estava fazendo. Percebi que me sentia incompleta porque queria ter figurinos e perucas que tivessem interligados com meus ideais e com minha história, e foi aí que passei a produzir e/ou customizar 90% de tudo que visto", conta.
Ser drag também fez com que eu entendesse melhor meu próprio corpo e rosto. Quando você se olha no espelho tão distante do que é fisicamente, isso te faz compreender melhor quem você é de cara limpa, sem cintas e meia calça", completa.