Crew são grupos de corrida focados no prazer que a atividade física traz, rejeitam as planilhas de treinos e a competição por paces melhores enquanto valorizam a diversão e a troca de experiência entre as pessoas durante o “corre”.
Esse estilo de corrida rebelde surgiu há alguns anos em Nova York e já tomou conta de capitais como Londres, Seul, Berlim e Rio de Janeiro. Como uma forma de aliviar o estresse e explorar espaços urbanos, os crews não têm rotas ou distâncias definidas (alguns começam com tímidos 3 km), correm em horários alternativos e no meio da cidade – afinal, não é todo mundo que tem um lindo parque com sombra de árvores à disposição.
Os pretos do crew
Espaço é o que não falta na avenida Paulista aos domingos, dia em que desde 2015 a prefeitura municipal de São Paulo deu início ao Programa Ruas Abertas, que veta o trânsito de carros aos domingos na via, uma das principais da cidade, entre 10 e 18h. Ainda assim, há dois meses, o pessoal do crew de corrida Prjct Run sofreu um ataque de racismo.
O grupo estava cheio, com várias minas exibindo seus big chops e uma ciclista gritou, ao mesmo tempo que derrubou uma das meninas: “A ciclovia é das bicicletas! Vocês nem deveriam estar aí, tinha que ser preto mesmo.”
Começou uma discussão sobre o trânsito nas faixas e os líderes tentavam controlar a emoção gerada pela violência da situação, enquanto a agressora disparou a pedalar assim que o farol abriu.
Como disse Marcos Rafael, um dos participantes da equipe, “É uma pessoa tão limitada que enxergou em nós o egoísmo dela em dividir o espaço público, que pode e deve ser compartilhado por pedestres e ciclistas”. Não há uma lei que proíba o uso da via por corredores ou praticantes de outras atividades esportivas. “O conceito era só para ciclistas, mas tornou-se espaço dividido também por quem patina, anda de skate e corre”, explica JP Amaral, membro da rede Bike Anjo, de São Paulo.
“Eu, que sempre fui da corrida, pouco via pretos nos grupos tradicionais”, diz ela. “A pessoa abre o Instagram, dá uma busca por tags de corrida e só vê gente branca correndo no Ibira e nas provas de corrida. Sem identificação, quem é de fora dessa bolha e é negro acaba se afastando da prática esportiva por que pensa ‘não, não é para mim’. Dpois de uma viagem que fiz no primeiro semestre de 2017 para Nova York, fiquei de cara com a quantidade de crews com diversidade de etnias correndo juntas pela cidade.”
Foi com essa pegada – e a fim de trazer questões sociais à tona – que Debora teve a ideia de reunir alguns amigos e criar um grupo em que os líderes fossem negros. “Conversando com o pessoal desse meio e pesquisando, vi que só o Ghetto, no Rio de Janeiro, tinha negros à frente do corre. Em São Paulo, somos o primeiro e isso é bem triste. Significa que a barreira do racismo bloqueou que essa iniciativa acontecesse antes.”
Ela convidou a educadora física Poliana Santana para ser uma das líderes e trazer mais uma mulher à frente, além de somar experiência técnica e dar segurança para quem nunca havia corrido antes. O crew começou oficialmente o corre em julho de 2017, com rolês no parque Villa Lobos, mas poucas pessoas compareciam. “O acesso era difícil para quem mora nos extremos da cidade e a gente queria fugir do estereótipo de que corrida é chato, só pode ser feita parques e precisa ter acessórios eletrônicos caros ou que só pagando terá acesso a bons treinos. Por isso, mudamos o local para av. Paulista, aos domingos pela manhã, e já no primeiro encontro reunimos mais de 20 pessoas”, diz Poliana que complementa dizendo que qualquer um pode participar, não importa a cor da pele.
E não importa o preparo físico ou idade. “Aqui, não tem essa de pace. Não precisa de monitor cardíaco, nada disso. Minhas tias que nunca correram na vida, hoje fazem o trajeto completo, cerca de 7 km, de boa”, diz Poliana. “A gente só recomenda não ficar de fone, até porque levamos nossa caixinha de som cheia de hip-hop para animar, mas também por segurança nos semáforos e em meio às bikes.”
Depois do incidente na vivido na Paulista, a voz do Prjct Run começou a ficar ainda mais forte, intensificou os posts nas redes sociais e, faça chuva ou sol, a galera vai no corre. “A intenção sempre foi ter um protagonismo negro nessa cena, por não me sentir representada, inclusive. Mas, sem levantar bandeiras. No entanto, vimos que após esse episódio de racismo, precisamos mais que nunca estar em todos os espaços públicos”, explica Debora.
“O resultado tem sido maravilhoso! Outro dia, uma garota enviou um direct por meio do perfil do Instagram do crew, dizendo que já havia pesquisado por diversas hashtags e só achou a gente como corredores negros e que ia vir no corre em breve, outro disse por mensagem que ficou inspirado por nós e vai se organizar com os irmãos do bairro e correr por lá também.”
O Prjct Run ficará de férias nas próximas semanas, mas retorna no dia 7 de janeiro de 2018, às 9h. O local ainda será definido e divulgado nas redes sociais do crew em até dois dias antes do corre.
